Acordou, olhou para o teto vazio e inexpressivo durante minutos infinitos antes de decidir o que ia fazer. Queria dormir um sono donde nunca mais poderia sair, queria ficar para sempre inerte, só sobrevivendo e nunca vivendo. Mas aquilo nem de longe lhe parecia certo. Sempre dissera a todos para nunca desistir, cair – e quem sabe morrer? – lutando. E por que raios ele não seguiria seu próprio conselho? Porque doía demais. Doía demais levantar-se de manhã e não encontrar os lençóis revirados ao seu lado; doía demais chegar a sua cozinha – imensamente limpa, devo ressaltar – e não encontra-la lá, sorrindo de modo afetivo e com cheiro de café; doía demais comer qualquer outra comida que não fosse preparada pelas suas mãos; doía ouvir qualquer som, ver qualquer cor, sentir qualquer sabor que lhe lembrasse dela.
Mas ele não podia desistir: não lhe era justo, nunca fora lhe dado esse direito.
Nunca havia entendido a dor do luto – não precisava sentir falta de alguém que finalmente havia encontrado a paz -, mas agora a entendia bem demais. E a única luz cálida e branca que deveria estar guiando-o para viver, sempre seguir em frente? Esta desaparecera. Talvez para sempre.
Ele se levantou e foi até a cozinha.
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