Ali, sentado na base de um riacho, com a água gélida e cálida permeando entre seus dedos, percebeu o quanto toda sua vida fora inútil: não plantara uma árvore, não compora uma música, não escrevera um livro – sequer tinha ideias para fazê-lo. Basicamente viveu como um parasita, alimentando a sociedade capitalista e se esquecendo de cultivar suas próprias ideias. Não tinha família: esta se afastara ao decorrer dos anos sem que ele nem se desse conta disso. Talvez fosse por isso que odiasse o Natal. Sentado na base de um riacho, com a água gélida e cálida permeando entre seus dedos, ele podia perceber isso. Enxergava sua vida com clareza e com mais clareza ainda se arrependia de toda ela. Uma vida jogada fora.
Olhou para o céu azul anil e se assustou: sentado na base de um riacho, com a água gélida e cálida permeando entre seus dedos, o céu parecia-lhe bem mais azul que da última vez que o vira. Quando fora a última vez que realmente o vira? Bem... não sabia.
Vamos, reerga-se! disse para si mesmo. Mas era esse o justo problema: não tinha nenhum âmbito em se reerguer. Baixou os olhos novamente para a água cristalina. Esta lhe parecia tão bondosa e paciente que, de certos modos, lembrava-se de sua mãe. Mãe esta que morrera abandonada num asilo por seu filho cruel.
Deitou-se na relva – sem tirar os pés da água gélida e cálida que os permeava – e deixou um pouco de ar escapar de seus pulmões e fluir pelo ambiente. Ouviu o gorjear de um pássaro. Tudo era tão calmo... tão tranquilo... Desejou, com todas as suas forças, que sua vida findasse ali. E no ato de desejar, suas pálpebras se fecharam e logo os olhos já não captavam mais imagens. Depois sua respiração cessou, seguida de seu coração.
Deitado na base de um riacho, com a água gélida e cálida permeando entre seus dedos, seu corpo jazia sem vida.